redescobrir os olhos
deixar abrir os poros
e assim desbravar o ser.
deixá-lo ser. 

movimentar o corpo
agitar a pele 
ouvir as palavras
não domesticar o que é.

soltar os olhos
deixar abertos os poros
esmiuçar as palavras
revirar o ser. 

libertar as palavras
afinar os olhos
afiar os poros
desafiar o mundo.

soltar os olhos
afinar as palavras
deixar abertos os poros
reencantar o ser.



(poema originalmente publicado no dossiê Poetas Contemporâneas do Brasil)

acho engraçada
minha teimosia
se quando te senti
por perto,
eu já sabia.

 

não leve a mal
se desviei o olhar
se julguei seus gestos
se esparramei falsas verdades

 

ainda tento fugir
quando vejo a onda se aproximar:
o coração palpita
a respiração encurta
achando que não sou de mar…

 

mesmo sabendo
que se tivéssemos nos chocado,
ele todo entraria em festa
e nos abraçaria, alegre
pelo toque dos olhares
que me arrepia por dentro,
me atrapalha e me aquece.

 

lábios roxos
bochechas coradas
olhos renovados
levo comigo seu olhar
e sua flor.

 

[   é para fortes
se deixar bagunçar
e já ser outra
logo depois
que você sair   ]

 

<poema do livro Tremores Nômades e Fortes (2019)>

enquanto a manteiga doura a cebola: o tempo do meu sangue começar a escorrer pelo talho no dedo e a fumaça se espalhar…

sopro-a pra longe, abrindo espaço.
nem assim desce o pranto

quanta pele há entre o ar e o sangue?
quanta anestesia há num corpo por transbordar?

só sei o que não sou: não a mesma de ontem,
nem uma desconhecida.

carne irrigada, corpo arfante
mirada que faísca: estou.

viva, vibrantemente,
vivo.

obra: For each extensil a revolution, de Latifa Echakhch, exposta no MACBA em março/2018.