tem horas
que não se quer parar:
passadas largas e rápidas
músculos em contração
estímulos à exaustão

cabeça a mil
reproduz formas de pensar
que já não servem
– enferrujadas –
pensamentos bumerangue
criam a próxima grande ansiedade

não sei quem foi que nos ensinou assim,
mas tenho algumas suspeitas:
cabeça vazia é a oficina do diabo
deus ajuda quem cedo madruga
a formiga e a cigarra
“não fale em crise, trabalhe!”
ocupe-se (que é pra não ocupar outros lugares)

por ora
posso estar suspeitando errado
– o que não basta, ao contrário daqueles para os quais basta a convicção –
nessa filosofia de botiquim

posso estar respirando errado
na correria de achar a solução
– que agonia! –

por ora, acho um tanto de coisa:
respostas e culpadas,
que a expressão “muita coisa”
tem sido desgastada,
que é importante falar o básico
– e repetir -,
(falar o básico
e repetir)
que há muitas exclamações e maiúsculas
e poucas reticências e escuta
que talvez posso jamais acreditar numa solução pra toda a vida
e que saber parar como parte do caminho é mais importante que buscar qualquer solução definitiva.

por ora.

sobreviventes

acho bonito pessoas que acreditam
que podem viver mais
do quê aquilo que disseram que se podia.

e isso vale pra quem sofre do fim de um amor
ou do fim de uma vida.

acho bonito pessoas que aceitam
as coisas como são
com firmeza e simplicidade
pra enfrentar o que for e o que vier

e isso vale para a falta e para o excesso
para a doença e a tragédia
para o explicável e para o inexorável

quem desafia o que está posto
quem cria uma outra história
quem vive na história criada

quem se declara feliz abertamente
quem não crê na possibilidade da felicidade
quem se entrega a uma paixão
quem é reticente com qualquer sentimentalismo

valentia e coragem se expressam em tantos tons
que não me agrada a pobreza de classificar

é um tanto quanto arrogante
querer comparar
quem sobrevive melhor
não?